Prot. 004/2026
ARQUIDIOCESE METROPOLITANA DE MADRI
DOM PAULO HENRIQUE CARDEAL PACELLI
POR MERCÊ DE DEUS E DA SANTA SÉ APOSTÓLICA
ARCEBISPO METROPOLITANO DE MADRI E NÚNCIO APOSTÓLICO NA ESPANHA
Madri, 18 de Julho de 2026.
Aos presbíteros, diáconos, religiosos, religiosas e a todos os fiéis da Arquidiocese de Madrid: graça, paz e a bênção de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Amados filhos e filhas em Cristo,
Com profundo senso de responsabilidade pastoral, movido pelo dever de guardar íntegro o depósito da fé e de conservar a comunhão eclesial que Nosso Senhor confiou aos Apóstolos e a seus sucessores, dirijo-me a todo o Povo de Deus desta Arquidiocese após a promulgação do Decreto do Santo Padre Leão XIV acerca da Fraternidade Sacerdotal São Pio X.
A Igreja de Cristo é una. Sua unidade não consiste apenas na profissão da mesma fé, mas também na comunhão visível com o Sucessor de Pedro e com o Colégio Episcopal. Separar uma dessas dimensões é romper aquilo que o próprio Cristo estabeleceu como fundamento da sua Igreja.
Por isso, causa-nos profunda tristeza constatar que continuam a existir grupos que, sob o pretexto de preservar uma suposta pureza da tradição, cultivam uma mentalidade de oposição permanente ao Magistério vivo da Igreja. Escondendo-se sob uma aparência de zelo, difundem um espírito de resistência, de desobediência e de desconfiança para com a legítima autoridade eclesiástica.
É necessário afirmar, com toda a clareza, que não existe verdadeira Tradição sem comunhão. Não existe autêntica fidelidade à Igreja quando se despreza aquele a quem Cristo confiou as chaves do Reino dos Céus.
A Fraternidade Sacerdotal São Pio X tornou-se símbolo de um modo de pensar que, infelizmente, ultrapassa as questões litúrgicas. Seu discurso alimenta um ultratradicionalismo que absolutiza formas disciplinares e costumes históricos, colocando-os acima da obediência ao Magistério. Alimenta igualmente um ultraconservadorismo que transforma preferências humanas em critérios absolutos de ortodoxia, julgando e condenando tudo aquilo que a Igreja, assistida pelo Espírito Santo, legitimamente ensina e governa.
Gravíssimo é o constante desprezo manifestado ao Romano Pontífice. A crítica respeitosa e filial pode existir; porém, a rejeição sistemática de seu magistério, a contestação de sua autoridade, a recusa em reconhecer suas determinações e a promoção da desobediência configuram uma ferida profunda na unidade da Igreja.
Com igual preocupação observamos a contínua rejeição do Concílio Ecumênico Vaticano II, apresentado por esses grupos como um erro ou uma ruptura da fé. Tal postura constitui afronta direta ao Magistério da Igreja, pois um Concílio Ecumênico legitimamente convocado e confirmado pelo Romano Pontífice pertence ao patrimônio vivo da Igreja e deve ser acolhido com religioso obséquio da inteligência e da vontade.
Também é inadmissível a constante desconsideração pelo Colégio Episcopal, unido ao Sucessor de Pedro. A Igreja não é governada por opiniões particulares nem por grupos autoproclamados guardiães exclusivos da tradição. Cristo confiou sua Igreja aos Apóstolos e aos seus sucessores, que exercem conjuntamente, sob a autoridade do Romano Pontífice, o múnus de ensinar, santificar e governar.
Exorto, portanto, todos os fiéis desta Arquidiocese a rejeitarem qualquer forma de simpatia, adesão ou colaboração com doutrinas, movimentos ou iniciativas que promovam a divisão, a desobediência ou a resistência organizada contra a Igreja.
Não vos deixeis enganar por discursos revestidos de piedade, solenidade litúrgica ou rigor disciplinar. A beleza da liturgia jamais pode servir de instrumento para fomentar a rebelião. A reverência exterior perde todo o seu valor quando deixa de ser expressão de um coração obediente à Igreja.
Uma espiritualidade construída sobre o desprezo ao Papa, sobre a suspeita permanente contra os Bispos, sobre a negação do Concílio Vaticano II e sobre a recusa do Magistério não conduz à santidade, mas ao isolamento, ao orgulho espiritual e ao cisma.
Dirijo-me, agora, de modo especial aos meus irmãos no sacerdócio.
Caríssimos presbíteros e diáconos,
A ordenação que recebestes configurou-vos a Cristo Cabeça e Pastor para servir à Igreja, jamais para vos tornardes instrumento de divisão. Guardai-vos cuidadosamente de toda influência ideológica que, sob aparência de ortodoxia, alimente desprezo pelo Santo Padre, pelos Bispos em comunhão com ele ou pelas decisões legítimas da Igreja.
Nenhum sacerdote possui autoridade para colocar sua interpretação pessoal da tradição acima do Magistério vivo. Não vos deixeis seduzir por discursos que cultivam ressentimento, espírito faccioso ou nostalgia transformada em rebeldia.
Permanecei fiéis às promessas de obediência feitas no dia de vossa ordenação. Celebrando dignamente a Sagrada Liturgia, anunciai o Evangelho em plena comunhão com a Igreja, edificando o povo e jamais dividindo-o.
Recordo igualmente que a verdadeira tradição é dinâmica, viva e inseparável da ação contínua do Espírito Santo na Igreja. Quem opõe tradição e Magistério rompe precisamente com aquilo que afirma defender.
Por fim, recordo aos fiéis desta Arquidiocese que, nos termos do Decreto promulgado pelo Santo Padre Leão XIV em nosso contexto eclesial, toda pessoa que aderir, promover, defender ou permanecer vinculada à Fraternidade Sacerdotal São Pio X ou aos princípios por ela sustentados incorre automaticamente na pena de excomunhão, encontrando-se igualmente em estado de cisma em relação à Igreja Católica.
Do mesmo modo, qualquer membro do clero que incorra em tal situação agrava sua culpa diante de Deus e da Igreja, tornando-se privado do exercício legítimo do ministério e sofrendo as demais consequências previstas pela disciplina eclesiástica vigente neste contexto.
Convido, contudo, todos aqueles que eventualmente tenham sido seduzidos por tais erros a retornarem ao seio da Igreja. As portas da misericórdia permanecem abertas. A Igreja jamais deixa de acolher, com amor de mãe, aqueles que sinceramente desejam abandonar o caminho da divisão e reconciliar-se plenamente com Cristo e com sua Esposa.
Peçamos a intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja, para que conserve firme nossa comunhão com o Sucessor de Pedro, fortaleça nossa fidelidade ao Magistério e faça da Arquidiocese de Madrid um testemunho luminoso de unidade, caridade e verdadeira tradição católica.
Dado e passado no Palácio Episcopal, em Madri - Espanha, aos 18 dias do mês de Julho, do ano do Senhor de 2026. Sob a proteção da Santíssima Mãe de Deus, a Senhora de Almudena.
✠Cardinalis Pacelli
Dom Paulo Card. Pacelli
Cardeal da Santa Igreja, Arcebispo Metropolitano de Madri e Núncio Apostólico na Espanha